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1 de março de 2017
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São Francisco na intimidade

Acabo de ler uma biografia de São Francisco de Assis, um santo que eu conhecia superficialmente. Simpatizava com a figura de um frei com jeito manso, uma pomba empoleirada na careca, duas pombas nos ombros, duas nas palmas das mãos. Uma batina marrom com corda amarrada na cintura. Achava interessante sua habilidade de conseguir conversar com todo tipo de animal. O que eu não sabia era que o jovem Francisco, que na verdade se chamava Antônio, teve uma vida pregressa bem agitada.

Ele era o baladeiro mais notório de Assis. Filho do comerciante mais rico da cidade e vendedor nato. De dia, trabalhava na loja do pai, fechando altos negócios, graças à sua lábia. Era bom de papo e gostava de vender. À noite, baladas com os amigos, tudo por sua conta. A vida era boa. Tinha tudo o que queria. Amigos, grana, saúde, juventude e garotas. Com tanta abundância, ele se revela um cara supergeneroso. Vivia festejando, cantando madrugada a fora, pagando drinks para os amigos. Assim como a vida era boa com ele, Francisco (provavelmente Xico, para os íntimos) compartilhava essa riqueza com quem cruzasse seu caminho.

Daí vem a virada. Um belo dia ele adoece. Dessas doenças misteriosas, sem causa e sem explicação, típica da vida dos santos. De repente, fica acamado, num quarto escuro, entre a vida e a morte. Cura-se sozinho, da maneira mais natural possível, com banhos de sol. A partir daí ele passa a adorar o sol. Faz do sol seu melhor amigo e inicia uma nova viva.

Curiosamente, seu raciocínio segue a mesma dinâmica da vida pregressa. Antes, tinha uma vida farta e uma personalidade generosa. Agora ele se desfaz de tudo o que tem, e passa a viver como um mendigo, sem um centavo no bolso porque ele confia na abundância natural. Ele testa sua crença e percebe que consegue sobreviver perfeitamente bem. Não sabe o que será dele no dia seguinte, mas confia que vai dar tudo certo. E assim ele vai vivendo, movido por uma alegria contagiante e, aos olhos dos outros, insana.

O cara está tão feliz e contente, cantando, livre como um passarinho, sem endereço fixo, sem contas pra pagar, que o estilo de vida pega e torna-se uma moda. Em determinado ponto, ele tem 5 mil seguidores que também largaram tudo o que tinham para aderir ao estilo franciscano. Sua motivação não é a renúncia em si, mas o contrário disso, a confiança de que vai dar tudo certo. Ele leva isso até as últimas consequências e a Vida, Deus, a Natureza, nunca o deixam na mão. Mesmo nas situações mais extremas, a ajuda vinha.

Então vem o grande teste. Roma é obrigada a se render à nova filosofia franciscana de ser, e tenta propor uma versão light desse estilo de vida. Algo que fosse factível para o cristão normal, que tem emprego, casa, filhos na escola. Mas aí é que está. São Francisco não abre concessões. O fim da sua vida tem um gostinho amargo. Seus antigos companheiros estão velhos, querem conforto, uma cama garantida ao final do dia, refeições regulares, um teto. Querem morar em mosteiro, imagine! E lá se vai o santo que dormia ao relento, perguntando-se onde foi que ele errou.

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