A sala reservada para as aulas de ponta era a maior de todas. As aulas aconteciam na sexta-feira à tarde, e duravam duas horas, mais meia-hora de aquecimento. Sextas-feiras eram reservadas para alunos avançados. Inclusive, havia bailarinos fazendo aula, o que foi uma grande revelação para mim. Sabia que eles existiam no mundo do ballet, mas nunca imaginei que frequentassem a mesma escola que eu. Achava que eram importados da Rússia. Mas lá estavam, se alongando com a perna em cima do piano. Fiquei um pouco constrangida, pois até esse dia a escola era um ambiente exclusivamente feminino e cor de rosa, de meninas. Nunca achei que fosse um estúdio de verdade. A presença masculina mudava tudo.

No vestiário vi moças de dezenove anos, fazendo coques impecáveis. Não mais meninas, mas moças lindas e sérias, que estavam ali por vocação. Eram magras, altas e passavam maquiagem para ir para a aula. Uma delas tinha aliança no dedo direito. Todas foram muito simpáticas comigo, me cumprimentaram e perguntaram se eu era a nova aluna.

Eu assenti.

Usavam uma leve saia cor de rosa transpassada por cima do collant. Eu não tinha essa sainha, e me senti pelada. Tentaram puxar papo comigo, mas minhas respostas foram monossilábicas. Elas já estavam de sapatilha de ponta no pé e seus corpos eram perfeitos, assim como a postura, o tom de voz e seus gestos. Parecia que tinham saído de uma fábula. Meu medo era abrir a boca e descobrir que tudo não tinha passado de um sonho.

Então a professora entrou no vestiário e me viu sentada ali num canto, com minha sapatilha de ponta no colo, ainda dentro da caixinha da loja. Ela havia falado para não calçar a sapatilha, pois ia me mostrar como fazer.

Enquanto minhas colegas de dezenove anos foram se aquecer, a professora me entregou um rolo de esparadrapo e disse que eu deveria enfaixar os dedos do pé, um por um. Depois colocar a ponteira e então a sapatilha. Por fim me mostrou como amarrar a fita. Não subindo pela canela, feito artista de circo, mas de um jeito discreto e elegante.

Quando entrei na sala, de sapatilhas de ponta no pé, estava me sentindo um pato, andando com os pés virados para fora. Fiz os exercícios de aquecimento e na sequência a professora mostrou o movimento correto para subir na ponta. Fiz.

Ergui a cabeça, estiquei o pescoço, prendi a barriga, botei os ombros para trás e subi na ponta. Meus braços se desprenderam da barra de ferro e se abriram suavemente, feito duas asas. Minhas pernas enrijeceram. Senti meus músculos firmes e aptos. Minhas pernas eram uma estrutura sólida e eficiente, enquanto e a parte superior do meu corpo queria flutuar. Mantive o equilíbrio, sem titubear. Meu corpo já não estava em contato com o chão. Entre a ponta do meu pé e o chão havia uma camada de gesso. Eu mesma estava suspensa, percebendo as possibilidades que se apresentariam a partir dali. Paradinha no meio eixo, consciente de que aquilo era uma evolução. Salto quântico seria um bom termo. A professora olhou bem nos meus olhos. Sim, eu tinha entendido.

–              Muito bem, então vamos começar – disse.

Foi nesse ponto, nesse exato instante, que eu declarei o fim da minha infância.

Modificado pela ultima vez: 26 de outubro de 2014

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Comentários

Érica Rodrigues 

olá! Tudo bem? Faltam poucos dias!!! A coordenadora da escola de Curitiba disse que escreveu para você, mas o e-mail voltou. Mas eu já disse para ela que está confirmado, só precisamos acertar os detalhes. Aguardamos seu retorno! bj

Sabrina Adrian Ribeiro Martins 

Olá! Eu, o Allan e o meu amigo Mateus, estamos aqui no laboratório de informática no colégio João Gueno… Gostamos muito do seu conto! Porque mostra a realidade de muitas famílias de hoje em dia, onde os filhos são obrigados a realizar os sonhos de seus pais! Estamos ansiosos para a sua visita, será ótimo se você trouxer uma de suas sobremesas, para que sua visita seja deliciosa! (risos) Gratos beijos dos alunos do 9º

Tairane Neves 

Olá. Tudo beim? Entaum, sou a Tairane e aderei saber um pouco de suas histórias, e meu irmão também, ele chegou em casa e começou a contar as novidades da escola, sendo assim uma de suas novidades que a Senhora viria aqui no colégio. Fiquei feliz, porém com uma pulguinha atrás da orelha, fiquei me perguntando quem era essa tal Índigo. Também estou com minhas amigas, escrevemos em um outro texto seu, e adoramos…hehe Dessa vez não gaziamos aula..kk Bom,me interessei muito em seus livros e estou muito ansiosa para te conhecer… Agradecida Tata…

Allan Viera Ferreira 

Estamos aqui no colégio João Gueno, Sabrina, Mateus e eu para dizer que nós gostamos muito do seu conto. Como a Sabrina disse no comentário anterior, seria ótimo se você trouxesse uma sobremesa, Nós gostamos de torta de chocolate, banana,morango (risos).

tatiana ferrarini 

Nossa esses aluninhos não querem nada heimmmmmm. Estou ate imaginando a Índigo chegando de Campinas trazendo torta de morango. Pensando bem não seria nada mal uma tortinha (risos), uns livros, um suco geladinho….roda de leitura….hummmmmm que beleza.

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