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14 de agosto de 2014
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Contos do corpo, 18 – Uma breve barriga

Um dia, estou no McDonald’s, me refastelando com um hambúrguer, quando o botão da minha bermuda salta e rola pelo chão da lanchonete.

Vejo o botão rolando, feito um barril, da minha mesa até o balcão dos pedidos. Fico com muita vergonha e finjo que não tenho nada a ver com isso. Sigo comendo. Minhas amigas não viram. Estão num papo animado. Tenho fé de que, quando me levantar, a camiseta tampará. Não há perigo da bermuda cair. Está justa demais.

Sei perfeitamente bem que estou engordando. Mas não entendo por que. Os adultos dizem que não é gordura. Dizem que estou forte. Minha infância vai chegando ao fim. Enquanto penso no atrevimento do botão, minhas amigas conversam sobre os meninos da escola. Ainda não me interesso por eles. Em parte, porque sei que eles também não se interessam por mim.

Não quero ser gorda. Decido que vou fazer um regime. Primeiro, termino o hambúrguer.

Naquela semana, presto atenção na conversa das mulheres adultas e fico sabendo que basta cortar refrigerante e o hábito de beber líquidos durante as refeições. Nada de líquidos durante a refeição, uma hora antes e uma hora depois. Adoto o regime.

Cortar o refrigerante demanda uma força de vontade sobre-humana, mas o prazer do autocontrole é maior. Sinto orgulho do meu autocontrole.

Depois da segunda semana, alguma coisa já está mudando no meu corpo. No ballet, a professora também repara. Passo a recusar doces.

Nas festinhas de aniversário, declino a oferta de brigadeiros, bolo, bala de coco.

–              Não, obrigada – digo.

Não explico o motivo.

As mulheres adultas insistem. A maioria é um pouco gordinha. Não quero ser gorda. Já basta o aparelho nos dentes e meus cabelos. A barriga é algo que posso controlar. Elas insistem muito para que eu aceite. Não se conformam com o meu altruísmo.

Minha mãe comenta que sou determinada. O comentário redobra minha determinação.  Depois de algumas semanas a barriga é uma questão secundária. Estou maravilhada comigo mesma. Minha força de vontade supera a de muitas mulheres adultas. Elas falam de regime enquanto comem pão de queijo. Eu recuso e sou leal ao meu acordo. Elas fraquejam. Sem que percebam a mão escapa até a bandeja, pega um pãozinho e nhac!

Descubro que tenho domínio sobre minhas ações. Gosto da minha postura estoica. Sou incorruptível. Rapidamente a barriga percebe que não há lugar para ela num corpo tão severo quanto o meu. Ela vai embora para nunca mais voltar.

 
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