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31 de outubro de 2020
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Minha dívida com as bruxas

Como escritora de literatura infanto-juvenil, admito que estou em dívida com a Bruxa. Nós já tentamos trabalhar juntas em algumas ocasiões. Até agora, infelizmente, sem resultados concretos. Mas nesse 31 de outubro eu gostaria de quitar parte dessa dívida, compartilhando com vocês um segredo.

Como vocês sabem, um livro passa por muitas versões antes de chegarmos naquela que será de fato publicada. Numa das primeiras versões de “Maria Antonieta e o gnomo”, havia uma bruxa. Ela acompanhava Maria Antonieta por toda a história. O problema foi que ela acabou dominando totalmente o livro. Bruxas fazem isso. Ela saiu do meu controle e quando me dei conta, o gnomo tinha sumido da história. Talvez constrangido pelo poderio da bruxa megalomaníaca. Ele sumiu! Sendo que o livro era sobre o coitadinho do gnomo. Então tive que tomar uma decisão muito difícil e até cruel. Eu matei a bruxa. Ela foi exterminada do livro. Hoje, quando lembro desse doloroso processo criativo, dá um aperto no coração. Agi corretamente? Não sei. Só sei que agora está feito.

Mas nesse dia especial, em homenagem a elas, compartilho com vocês algumas páginas do que provavelmente teria se tornado “Bruxa Antonela e Maria Antonieta”.

Eis:

Entrei numa lojinha.

Dei uma passada de olhos nas bugigangas das prateleiras. A maioria era desinteressante, como bonés, cinzeiros e copos. Num canto, no fundo da loja, avistei uma seção especial. Não eram brinquedos. Também não eram objetos de decoração. Eram o que meu pai classificaria como “porcariada”. Ele não entendia o valor de objetos assim.

Como poderia? Ele tinha carro, apartamento, computador, telefone celular, televisão. Jamais entenderia a emoção de segurar um castelo medieval na palma da mão. Agora, longe deles, tudo que eu tinha na vida era um gorro, um gnomo, um porta-moedas, uma barra de chocolate e um par de luvas, com um dedo de cada cor.

Mas eu era realista. Embora tivesse gostado do castelo medieval, o devolvi à prateleira. Primeiro, eu precisava encontrar meios de sobreviver. Analisei as outras opções: um gato, um santo, uma igreja e um cavalo.

O cavalo foi o que mais me inspirou confiança. Acariciei sua crina. Gê ficaria feliz. Em Pindamonhangaba, nós tínhamos uma tartaruga. Peguei o animal e fui até o balcão, sem pressa. Continuei olhando as prateleiras, quando um objeto preto desabou lá do alto e caiu na minha frente.

Era uma bruxa.

Tudo no seu aspecto levava a crer que não se incomodava com os sinais de velhice. Apesar do nariz pontudo e as rugas, tinha um jeito alegre. Ergui sua saia. Em vez de calcinhas, uma bermuda branca com bolinhas vermelhas. Simpatizei com ela. Os sapatos eram de salto quadrado, com fivela prateada. Em volta do seu pescoço, um barbante com a etiqueta da loja, porém sem o preço.

Levei a bruxa e o cavalo até o balcão. O atendente falava ao telefone. Era alto e barrigudo. Enquanto falava, fazia gestos com a mão, o que era um pouco ridículo. Esperei que ele terminasse. Precisava perguntar o preço.

Enquanto aguardei, aproveitei para pegar uma bala. Coloquei-a ao lado do cavalo. Minha mãe sempre pegava uma coisinha qualquer na hora de pagar: um chiclete, uma revista, um isqueiro, uma pilha AA… Eu achava charmoso quando a pessoa acrescenta uma coisinha de última hora. Não resisti. Peguei mais duas balas e montei a bruxa no lombo do cavalo. O homem observava meus movimentos, mesmo assim ele não parou de falar. Peguei mais duas balas. As quatro balas deixaram o conjunto mais equilibrado. Uma bruxa a cavalo e quatro balas.

Pronto, agora não pegaria mais nada.

O homem tampou o telefone com a mão e disse um negócio que não entendi. Então ela apontou para a etiqueta em branco no pescoço da bruxa. Indicou o preço erguendo oito dedos.

Retornei o cavalo à prateleira. Abri a bolsa e botei as moedas no balcão. O homem afastou umas para cá, outras para lá, varreu a tampa do balcão com a palma da mão e tirou as moedas de vista. Enfiou a bruxa e as balas num saco de papel. Entregou-me o saco e voltou a falar ao telefone, enquanto remexia no dinheiro da gaveta.

Agora, o certo era sair da loja. Eu bem que gostaria de ficar mais um pouquinho, mas o certo é comprar e sair fora. Quando empurrei a porta de vidro, o homem do balcão gritou uma palavra que reconheci. A palavra era “bambina”, diminutivo de Bambi. Eu havia esquecido o troco. Peguei o que ainda tinha para receber e guardei no porta-moedas.

Bambi também devia ter seus truques secretos, embora isso não aparecesse no filme. Ele também ficou órfão, e no fim sobreviveu. O importante era seguir em frente. Eu não ia passar o resto da vida numa estação de trem.

Atravessei a avenida usando a faixa de pedestres. Isso eu já sabia fazer sozinha. Se estivesse com meus pais, eles fariam questão de segurar na minha mão. Dessa vez pude atravessar sem segurar na mão de ninguém. Durante a travessia meu coração acelerou um pouco, o que é natural. Era uma avenida enorme, e os adultos me ultrapassavam como se não me vissem. Mesmo ficando para trás, não fui a última a chegar do outro lado. Atrás de mim vinha uma mulher com seu cão. Além de lenta, ela usava calça de pijama por baixo do casaco de inverno, e seu cachorro parecia um urso. Nenhum dos dois estava com jeito de quem teria compromissos importantes naquele dia. Achei que seria uma boa ideia segui-los pela cidade.

Mas mantive distância. Não pretendia fazer amizade com eles, não necessariamente. Seguia no mesmo caminho que eles apenas por precaução, caso tivesse de pedir uma informação. Isso, caso fosse preciso. Caso surgisse um imprevisto.

Foi uma boa decisão. A mulher e seu cão conheciam caminhos alternativos. Antes, nos passeios com meus pais, eu sempre percorria as mesmas avenidas, do hotel para o ponto de ônibus em frente à estação de trem e de lá para os museus. A mulher e seu cachorro não tinham jeito de quem entraria em museus.

Entraram numa rua diferente das outras. Nas calçadas havia bancos para as pessoas descansarem. Era uma rua exclusiva para pedestres e cães. Em vez de carros, havia canteiros de flores e quiosques que vendiam de tudo. A mulher aproveitou para se apoiar num poste. Ficou arfando. Devia ser asmática. Foi uma cena um pouco deprimente, na verdade.

Eu me sentei num banco vazio, fingindo que essa era minha verdadeira intenção. Ajeitei a bolsa verde-musgo no colo e olhei para o lado oposto. Um guarda se aproximou. Para disfarçar ainda mais, desembrulhei a barra de chocolate e comi metade. O guarda era magro, tinha bigode. Usava um chapeuzinho gozado, com uma faixa de couro presa ao queixo. Seu terno era preto, com botões dourados. A camisa era branca, com gravata preta. Sapatos pretos, lustrosos, e luvas brancas. Ele parou em frente à mulher arfante e lhe ofereceu ajuda. Logo compreendi que os dois se conheciam. Conversaram como velhos amigos. A mulher devia ser cardíaca. Agarrava-se àquele poste todos os dias, e todos os dias o policial vinha acudir. Talvez fosse sua estratégia para seduzir o guarda. O cão-urso era até amigo do guarda. Isso ficou evidente pelo movimento do rabo, das orelhas, e no seu sorriso. Reparando bem, não seria exagero concluir que a mulher só estava viva graças a eles. A cena serviu para reforçar minha filosofia de vida. Eu acreditava na ajuda do destino. Tirei a bruxa da bolsa e olhei novamente para seu rostinho enrugado.

Seu nome será Antonela. Seremos ótimas amigas. Eu também acho esse negócio de idade uma bobagem. Se eu acreditasse em idade, não estaria aqui sozinha, vivendo uma aventura. Estaria grudada aos meus pais.

Estou feliz pelo nosso encontro.

Uma moça que passava pela rua nos lançou uma olhadela rápida e sorriu. A bruxa estava sentada no meu colo, e isso deve ter chamado sua atenção. Seu olhar era de total identificação.

Algo me diz que ela também tinha uma amiga como você, Antonela. Ou então… ela é aprendiz de bruxa.

Esperei que a moça se afastasse. Daí me levantou e a seguiu, sem que ela percebesse.

Dois quarteirões depois, cheguei a uma ruela de paralelepípedos. Isso foi providencial, pois o desnível do calçamento me obrigou a pisar nas pedras mais altas, evitando as demais. Agora eu tinha uma rota para seguir. E foi assim que eu cheguei ao palácio.

 

 
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4 comentários

  1. Avatar
    Mari Zilda da Silva de Marcos

    Muito bom gostaria de ler o livro inteiro. Simples, íntegro e de uma leitura leve.

    1. Avatar
      Índigo

      Oi, Mari Zilda. Que bom que gostou! Fico feliz. Clicando em “Livros” vc consegue ler o primeiro capítulo de todos eles. bjo, Índigo

  2. Avatar
    Anna Cristina

    Gostei! Se eu fosse você, daria uma chance para a Antonella. ?

    1. Avatar
      Índigo

      kkk, tb acho que ela merece. Aqui foi uma primeira chance. Vamos ver se ela faz por merecer. bjo

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