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2 de outubro de 2014
743 visualizações

Contos do corpo, 32 – Joelhos

Thaís perguntou se eu gostaria de voltar ao retiro espiritual.

Será? Não sentia que eu tinha vocação.

Ela insistiu. Eu não tinha nada melhor para fazer. Minhas amigas começavam a namorar. As que não namoravam, não falavam de outra coisa. Tirando os pedreiros, taxistas, cobradores de ônibus, varredores de rua, o sorveteiro, o pipoqueiro e os homens da padaria, ninguém estava interessado em mim.

Fui me encontrar com Jesus.

A programação do fim de semana foi idêntica a do encontro anterior. Um pouco de cantoria, leitura e discussão de textos bíblicos, caminhadas pela natureza, orações, refeições no refeitório. O clima era agradável e enfadonho. Mas eu gostava de estar cercada por pessoas boas. Alguns dos padres eram engraçados. Tinham um senso de humor sutil. Faziam um ótimo trabalho em não se comportar como padres. Ficavam à vontade na nossa presença, quase indiferentes à proposta espiritual. Aos poucos fui percebendo que de toda a turma, apenas minha amiga Thaís era obcecada com Jesus.

Ana Paula, por exemplo, estava mais preocupada com a quantidade de molho de macarrão. Até pediu que um dos padres lhe orientasse nesse aspecto. Ana Paula era três anos mais velha do que nós e estava no comando da equipe da cozinha. Padre Lúcio ficou igualmente preocupado com a questão do molho de tomate e deixou a sala. Ele estava nos explicando algumas coisas sobre o Egito antigo. Depois de meia-hora voltou e perguntou se alguém podia assumir a leitura em seu lugar, pois ele precisava dar uma assistência na cozinha.

No retiro era assim. Trabalhávamos em mutirões. Eu tinha passado a tarde abrindo covas para plantar mudas de árvores nativas. Thaís tinha limpado a igreja. Aquele era nosso momento de descanso. Lembro que estávamos sentadas em almofadões, na sala principal do sítio, onde havia uma lareira. Era um ambiente bem confortável. Eu mesma estava deitada no carpete, com os pés apoiados na parede de pedra e os olhos fechados, visualizando a paisagem desértica do Egito, enxergando pirâmides, camelos e tapetes voadores. Foi então que ouvi uma voz.

Abri os olhos. Virei a cabeça.

Quando vi, tive uma pequena vertigem e palpitação. Perdi o fôlego e senti um arrepio na espinha. Ele tinha olhos verdes e cabelos pretos escorridos, presos num rabo de cavalo. Usava camisa xadrez e calça jeans verde. Ao final da leitura, olhou nos meus olhos e deu uma piscadinha. Foi vocação à primeira vista. Olhei à minha volta, para conferir se as outras meninas estavam tendo a mesma visão que eu. Nenhuma delas parecia particularmente abalada. Algumas seguiram ouvindo de olhos fechados, como se isso fosse possível.

Padre Lúcio voltou à sala e disse:

– Obrigado, Alexandre. Agora vamos fazer uma roda.

Formamos a roda. Alexandre, não sei se por milagre ou acidente, se sentou ao meu lado, com o joelho encostado no meu.

Começou assim, joelho com joelho.

 
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1 comentário. Aleluia!

  1. Avatar
    tatiana ferrarini

    Adoro esses contos da adolescência é como se fosse uma viagem no tempo. Lembro de tantos momentos bonitos mais também de tantas lagrimas caídas pelo chão. Ler os seus contos deixam o diário da minha mente aberto. Sinto saudade….mais o tempo passa é me realizo vivendo a cada dia as aventuras dos adolescentes do colégio com quem escrevo algumas paginas divertidas aos longo do dia. Índigo, continue se inspirando com o cosmos e nos presenteie com mais contos divertidos.Beijocas

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