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24 de julho de 2014
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Contos do corpo, 8 – O pino

Pouco depois que perdi os dentes da frente, quebrei o braço. Estava patinando num rinque muito popular na época. Era sábado à tarde. O lugar estava abarrotado de patinadores com os mais variados graus de destreza. Vi a cena antes mesmo de acontecer, tipo premonição. Uma gordinha de camiseta vermelha e shorts branco vindo em minha direção feito uma bola de canhão. Ela me acertou em cheio. Apoiei o braço no chão, para amortecer a queda. Ela, para amortecer a sua queda, atirou todo o peso em cima de mim. Meu cotovelo dobrou ao contrário. Minha mão esquerda foi parar na minha omoplata direita, dando a volta por trás. Eu mesma não vi nada disso. Só lembro do meu berro e da certeza de que minha vida acabaria ali.

No instante seguinte estou voltando da anestesia geral, com uma enfermeira olhando para mim. Não entendo direito onde estou, mas por uns instantes penso que não sou mais eu. Ela fala meu nome. Pouco a pouco as coisas vão voltando ao lugar, mas não consigo mexer a cabeça.

Na segunda vez acordo e vejo uma cortininha verde-água. É apenas uma cor, que não me ajuda minimamente. Estou tão zonza que fico no verde-água, boiando.

Na terceira vez, sim, eu volto a mim e pergunto pelo meu advogado. Quero botar a gordinha na cadeia. Meus pais explicam que não é assim que funciona. Pergunto se ela continua solta. O médico faz uma piadinha e todos me ignoram. O médico está mais preocupado em me orientar sobre os cuidados para as próximas semanas. Explica que botou um pino no meu cotovelo.

Ele me parece mais empolgado que o normal, para um médico. Não para de falar sobre o pino. Ele pega um mini-esqueleto humano, de um homenzinho de trinta centímetros, e explica que o cotovelo é como uma alavanca. Depois ele pega o braço de um esqueleto tamanho real, mas apenas o braço. Ele dobra o braço, gira o braço, faz várias torções. Daí ele arranca um osso, enfia um pino no lugar e mostra que o braço continua funcionando. Só que não funciona de cara. O pino cai, e metade do braço cai junto. Cai no meu colo. A mão de osso encosta na minha mão e eu levo um susto. Ele pede desculpas e encaixa o pino direito. Diz que no meu caso não tem esse perigo porque está tudo colado, e tem o gesso, e tudo vai ficar bem grudadinho. Mas a essa altura eu já imaginei o pior.

Passo as próximas semanas com o braço engessado, durante o verão mais quente dos últimos setenta e cinco anos. Recorro a uma agulha de tricô para coçar o braço. Tenho chiliques de desespero. Todas as crianças estão na piscina e eu tenho de ficar sentada na borda, com o braço dentro de um saco de lixo. A gorda, solta e feliz em algum lugar que nem imagino. Ninguém foi atrás dela. Meus pais me repreendem cada vez que toco no assunto do processo.

Depois de uma pequena eternidade chega o dia de tirar o gesso. É o mesmo médico. Ele continua empolgado. Resolveu que quer fazer um teste.

–              Que tal tirarmos o pino, pra ver o que acontece?

Acho melhor não. Não sinto firmeza nesse médico. Mas quem sou eu. Eles tiram o pino.

Ele me garante que foi um sucesso, e que posso levar uma vida absolutamente normal. Por via das dúvidas, decido o contrário. Não vou levar vida normal coisa nenhuma. Digo adeus a todas as atividades físicas. Sei que meu braço pode cair a qualquer momento. Durante as próximas semanas fico no meu quarto, lendo na cama, tranquila. Ainda posso ser feliz. Nesse ponto resolvo que serei uma intelectual. No máximo, atriz de teatro. No máximo.

 
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