Elucubrações ao pé da árvore
Para os que acompanham minhas aventuras pela floresta, vocês devem estar lembrados que, apenas algumas semanas antes eu havia me transfigurado em formiga. Por isso a transmutação em si nem me assustou tanto. É algo que acontece o tempo todo com as pessoas que vivem na floresta. Só que dessa vez senti que me entreguei de corpo e alma. Enquanto eu era formiga, continuei raciocinando quase que da mesma forma. Decerto porque tenho alma de formiguinha operária. Mas a maneira como as serpentes pensam…. é diferente de tudo que eu havia experimentado antes. É enlouquecedor. Os pensamentos chegam de um modo bem sinuoso e provocante. Uma vez instalados, vão longe, muito longe, como num seminário de filosofia. Eu não conseguia me mexer, fascinada pela minha nova visão de mundo. De repente descobri aspectos ocultos da minha personalidade. Eu não era a florzinha que imaginava ser. Longe disso… Eu tinha um lado diabólico. E sabe o que é o pior? Não me assustou. Ao contrário, foi quase um alívio. “Ah… finalmente você está admitindo…”, sussurrou a voz na minha cabeça.