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30 de julho de 2014
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Contos do corpo, 10 – Pés de bailarina

Para aquelas que fracassaram nos esforços para ser princesa, só restava uma alternativa. Ser bailarina. Fui no embalo. Muitas colegas já haviam optado por esse caminho. As mães encorajavam. A minha achou uma ideia excelente. Pelo menos no palco, bailarinas transmitem a impressão de serem educadas, dóceis e delicadas. Ia me fazer bem.

A academia era num velho casarão com uma piscina bem no meio. Todos os quartos, agora transformados em sala de aula, tinham uma porta-janela que abria para a piscina. A piscina era a parte central da casa. Havia pequenas ninfas fazendo pose no jardim, em meio aos canteiros de azaleias. As classes mais adiantadas usavam o salão principal, onde havia um piano. Dona Antonieta, uma senhora com toda a pose de quem algum dia havia de fato morado na mansão, tocava piano durante a aula. Ela usava colar de pérolas.

Senti que estava no lugar certo. Era elegante, sofisticado e austero. Era disso que eu estava precisando. Na terceira aula a professora pediu que eu esticasse a ponta do pé e fizesse um passé. Depois um releve e um frappe.

–              Você tem um pé lindo – ela disse.

Fiquei lisonjeada. Abri um sorrisinho. Mas ela não estava sorrindo. Ela se agachou e segurou meu pé com as duas mãos. Estiquei a ponta. Ela dobrou meu pé no meio.

–              É pé de bailarina.

Sim, eram elogios, mas eu logo pressenti que ela tinha segundas intenções.

–              Nós vamos trabalhar bem isso aí.

Eu tinha virado um pé. Ela estava fascinada com meu pé. Na semana seguinte me transferiram para uma turma mais avançada. A professora era outra. Não mais uma moça recém-formada, que executava cada movimento junto com a classe, mas uma senhora de saia de veludo na altura do joelho e bengala. Usava salto alto quadrado e fumava durante a aula. Às vezes dava um pulo no jardim para tossir. E mesmo tossindo, de costas para nós, enxergava joelhos dobrados e barrigas soltas. Dava bengaladas nas nossas pernas, bundas e barrigas. Dona Olenca era seu nome.

Com Dona Olenca aprendi que meu pé era um privilégio. Por uma questão de consideração, eu tinha de fazer jus ao pé de bailarina. Por isso eu levava o dobro de bengaladas e tinha a obrigação de fazer tudo melhor, com mais firmeza e por muito mais tempo. Por causa do meu pé.

Meu pé foi meu primeiro dom. Anos depois veio a escrita. Hoje, se apanho tanto para escrever, é por causa dos pés de bailarina. A máxima de Dona Olenca era: “Se não dói, não é balé.”

Ela conseguia fazer doer. E eu aprendi direitinho.

 
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