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5 de agosto de 2014
24206 visualizações

Contos do corpo, 13 – Férias de verão

No dia 3 de janeiro, fomos para a praia. Eu, de biquíni e cabresto. Botei um boné, para disfarçar. Fiquei debaixo do guarda-sol. Eu só queria ser uma pessoa normal, com os dentes livres. Poder sorrir. Só isso.

Minha mãe disse que eu teria a vida toda pela frente. Também deu a entender que eu era nova demais para ser tão vaidosa. Eu discordava. Há quem dissesse que eu já era pré-adolescente.

– Você ainda brinca de boneca, então é criança.

Não pude refutar. Minha filha estava sentada no meio das minhas pernas. De chuquinha e babador. Eu sempre a levava junto, para onde quer que fosse. Ela fazia com que eu me sentisse mais madura. Enquanto as outras meninas brincavam de pular ondinha, debaixo do sol, eu ficava ali, como a mãe responsável que era, cuidando da minha filha. O pediatra havia falado para evitar o sol do meio-dia. Eu me considerava uma boa mãe. A maior prova disso é que conseguia deixar meus problemas de lado para dedicar toda minha atenção a ela.

Meus pais iam caminhar pela praia e eu ficava na nossa barraca, observando as pessoas no horizonte. Ninguém olhava para o lugar onde estávamos. Depois de alguns dias dessa rotina, entendi que não havia motivo para preocupação. Eu era praticamente invisível para as pessoas que vão à praia.

Naquelas férias não consegui entrar no espírito praiano. Teria preferido ir para uma fazenda, onde pudesse vestir um macacão jeans, camisa xadrez e galochas. Achava desconfortável passar o dia de biquíni, com areia grudada no corpo, sem um banheiro descente, me sentindo mole e suada. Quando chegávamos ao chalé, ia para o meu quarto e tentava reconstituir um ambiente minimamente caseiro. Botava minha filha no berço e fazia comidinhas. Mas isso não durava muito. Era impossível ficar dentro do chalé abafado durante o dia. Eu acabava correndo para a varanda, onde meus pais ficavam tomando cerveja com porções de camarão. A outra opção de lugar para ficar era a área de lazer, onde havia crianças que reparavam em mim. Então eu voltava para o chalé e aturava o calor, suando em bicas, segurando minha filha no colo, prometendo a ela que em breve voltaríamos para a nossa casa. Seriam apenas duas semanas de férias.

Certo dia minha filha começou a reclamar de frio. Eu havia levado alguns casaquinhos de crochê e a agasalhei bem. Mas o frio não passava. Eu também comecei a sentir o mesmo frio. Minha mãe, deitada na sua canga, seguia lendo seu romance de quatrocentas páginas. Falei que iríamos voltar ao chalé. Dessa vez, nosso quarto estava friozinho, como num chalé suíço. Nós nos enrolamos no único cobertor que havia ali e ficamos bem entocadas, trêmulas, porém felizes por termos escapado da praia e de toda aquela gente semi-nua, alegre e sorrindo com a boca aberta. Era como se Deus tivesse olhado para nós, percebido que éramos pessoas do bem, e nos dado uma trégua. Então meus pais chegaram e nos levaram para o hospital.

Tudo doeu. Quando nos tiraram da cama, nos colocaram no colo e nos ajudaram a andar. Doía quando encostavam no meu braço e quando eu mexia o corpo. Eu implorava para que me deixassem quieta, na Suíça. No hospital, ouvi vozes e consegui entender uma coisa ou outra. O médico falou em delírio, mas não achei que fosse em relação a mim, e muito menos à minha filha. 

No dia seguinte eu estava no chalé, deitada. Pela janelinha eu via as folhas de um coqueiro acenando para mim. Chovia. Eu ouvia a trovoada, depois voltava a dormir.

Foram três dias de trégua. Até esfriou um pouquinho.

Perguntei à minha mãe sobre o delírio. Fiquei intrigada. Ela se esquivava de responder.

–              Mas como era o delírio? Eu via coisas?

–              Acho que via.

–              Eu dizia o que estava vendo?

–              Não dava pra entender o que você dizia.

Eu só queria que ela confirmasse. No fundo, eu lembrava. Um anjo vindo do Sol voou até a praia, me pegou no colo e me levou para o chalé. Depois voltou ao céu e teve uma conferência com o criador. Intercedeu por mim. Por isso os três dias de chuva.

Foi sem querer. Eu não queria estragar as férias das pessoas. Mas também não queria morrer de febre, debaixo do sol.

–              Não deu pra entender nadinha mesmo?

–              Teve uma hora que você falou que estava vendo lagartos na parede.

Não sei de onde ela tirou os lagartos na parede. Por mais que eu perguntasse, ninguém falou um “a” sobre o anjo dourado. Depois de um tempo simplesmente esqueci o assunto, e me recolhi à minha insignificância. Eu tinha sobrevivido os quinze dias de praia.

Quanto aos lagartos, fazer o que…


2 comentários

  1. Avatar
    Plinio

    …os lagartos foi uma invenção dela pra não ter que explicar outras coisas…
    Mas realmente você não se compatibiliza com férias na praia.
    Seu negócio é chácaras e sítios no interior.
    Cada um tem a sua preferencia.
    Eu por exemplo não me esqueço de quando vi o mar pela primeira vez. E olhe que isso faz muuuuito tempo.
    Eu desci do carro sem ter noção ainda do que estava pra ver, a única coisa diferente que via era que os prédios ficavam de um lado e do outro lado não tinha nada, achei isso estranho.
    Mas quando eu pisei na areia e caminhei em direção ao mar e olhei aquela imensidão eu lembro que fique uns dez minutos só digerindo aquela paisagem que pra mim, um garoto de interior, era uma coisa nunca vista, até que meu pai disse, vá até a agua mas não entre até o fundo…
    Então tive outra surpresa, como poderia tanta água assim estar se movimentando agitada e com ondas como se algum deus do olimpo as estivesse chacoalhando?.
    E desde então me apaixonei pelas praias, sempre que pude viajei a conhecer novas praias, acampando em campings selvagens, viajando de moto, de carro e até de onibus.
    Nunca saí do país, mas com tanta praia bonita que tem por aqui acho que não precisa mais.
    Já não curto viajar p o interior talvez por ter nascido em um.
    Então é isso.
    Gostei da sua história.
    Ler a história de outros é quase como viver uma outra vida dentro desta.
    Obrigado por compartilhar.

    1. Avatar
      Índigo

      Oi, Plínio. Eu é que agradeço! bjo

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