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6 de agosto de 2014
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Contos do corpo, 14 – Bom-dia nariz!

Um dia acordei, olhei no espelho e notei alguma coisa estranha no meu rosto. Virei de perfil. Parecia que meu nariz tinha aumentado. Virei para o outro lado. Não é que tivesse aumentado. Parecia o nariz de outra pessoa, no meio da minha cara. Tirei o cabresto, escovei os dentes, penteei os cabelos e fui tomar café da manhã.

Nessa época, vira e mexe eu flagrava minha mãe olhando para mim de um jeito estranho. Nessa manhã não foi diferente. Ela só olhava, sem dizer nada.

–              O que foi? – perguntei.

–              Não, nada.

Ela tentou disfarçar. Olhou para o fundo da xícara do café, falou que eu ia me atrasar para a escola.

Eu sabia por que ela olhava para mim daquele jeito, mas me recusava a tocar no assunto. Eu estava crescendo, só que meu nariz resolveu se antecipar. O que eu podia fazer? Essas coisas acabavam com meu humor. Minha mãe era super bonita. Seu corte de cabelo era perfeito. Ela já acordava maquiada, com delineador nos olhos e salto alto. Ela tinha roupas incríveis. Eu só tinha o uniforme escolar, cabresto, um par de tênis encardidos e agora o nariz, para completar.

Meu único consolo é que na escola havia meninas bem mais desengonçadas do que eu. Não muitas, mas umas três ou quatro. Eu, pelo menos, era magra e tinha pernas fortes. Se você cortasse a minha cabeça fora, até que não era tão mau. Além disso, minha cara ainda estava tomando forma. Tudo podia mudar. Ok, o nariz tinha espichado. Mas talvez, nas próximas semanas, meus olhos e boca acompanhasse e no fim tudo ficaria harmônico. Fora os dentes, que estavam vindo para trás, pouco a pouco. Eu usava o aparelho direitinho. Aguentava a gozação dos colegas. Achava uma criancice gozar de uma pessoa só porque ela usa cabresto. Eu mesma nunca faria isso, se eu não fosse eu. Provavelmente ficaria com dó da pessoa, mas não ia botar apelidos.

Às vezes, durante a aula, eu metia a ponta do lápis entre o aro do cabresto e a minha bochecha. Ficava abanando o lápis, naquele vãozinho, fazendo tec-tec-tec-tec.  A professora só olhava, mas como eu estava prestando atenção na aula, o que ela podia dizer? Ela não dizia nada.

Pelo menos na escola, ninguém reparava em detalhes como narizes, orelhas e braços desproporcionais. Tentávamos não pensar nisso. No dia que meu nariz cresceu foi um pouco mais difícil de ignorar. Na hora no recreio, quando tive de ir correndo ao banheiro, para não mijar nas calças, levei um susto quando vi minha imagem refletida no espelho. Durante alguns segundos achei que fosse outra menina, também de cabresto, do outro lado. Mas era eu mesma, ou talvez uma visão da pessoa na qual estava me transformando. Acho que entre a aula de português e matemática eu cresci uns dois centímetros. De repente, além do nariz descomunal, eu estava alta. Muito alta. Eu parecia um espírito, de tão alta e magra. Um espírito com o nariz do meu avô.

Naquela noite, pela primeira vez, tive vontade de ter nascido no oriente médio. Lá, eu poderia simplesmente enrolar um véu no meu rosto, deixando apenas os olhos à mostra. Se fosse possível tampar o cabelo e o resto do rosto, até que ficava bonitinha.

O cabelo merece um capítulo à parte.

 
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