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20 de agosto de 2014
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Contos do corpo, 20 – Peitos chegando

Estou sentada no canto da quadra, com minha filha no colo, junto às outras mães, quando uma das crianças abre um berreiro. Eliane tenta acalmar seu filhinho. Mete uma chupeta na boca do bebê. O bebê atira a chupeta longe e continua berrando. Faz ume escarcéu.

–              Deve estar com fome – eu digo.

Eliane ergue a camiseta do uniforme e encosta a boca do bebê no seu umbigo.

–              O que você está fazendo?! – pergunto.

Ela responde que está dando de mamar. Através do umbigo.

–              Como assim?

Ela fica um pouco irritada.

–              Estou dando de mamar, dá licença – diz, e se vira de costas para nós.

Ninguém entende nada. Fico constrangida com a cena. Pego minha filha e saio fora. Chegando na sala de aula, guardo meu bebê na mochila e fico observando as mocinhas. Algumas começaram a usar gloss labial. Nem sei mais se quero ser mãe. Por alguns instantes considero a possibilidade de me tornar mocinha algum dia. Não com a minha cara, o meu cabelo, meu nariz e o aparelho ortodôntico. Mas, considerando que ainda estamos passando por mutações, minha aparência pode melhorar. Pode piorar também, ou melhorar. Pensar nessas coisas me deixa de mau humor. Nessa hora a coordenadora pedagógica entra na sala e fica conversando com a nossa professora. Curiosamente, os meninos não voltam do recreio.

Depois que a última menina senta em sua carteira, a coordenadora pedagógica diz que gostaria de conversar conosco. Fecha a porta.

A professora fica sentada num canto da sala, com um sorrisinho estampado no rosto. É evidente que vão falar sobre algum assunto bem constrangedor. Penso em Eliane dando de mamar pelo umbigo e quero me enfiar debaixo da carteira. A coordenadora pedagógica dá uma volta enorme, mas no fim ela diz que está na hora de começarmos a usar sutiã.

–              Todas.

Eu pertenço ao grupo das que ainda não usam. As amamentadoras, em geral, não usam. Fico esperando o resto do discurso. Se chegou a esse ponto, claro que vai falar sobre a amamentação. Ela pula para a questão da menstruação, cólicas e absorventes. Parece filme de terror. Agora eu tenho a impressão de que minha camiseta é totalmente transparente. Se eu tivesse trazido uma jaqueta, vestiria. Não trouxe, não tenho como disfarçar. Eu me sinto nua.

Ela diz que vai ser melhor assim. Se na segunda-feira todas nós aparecermos de sutiã, os meninos não vão poder caçoar de uma ou de outra. Duvido. Claro que vão caçoar, e a diversão será puxar o elástico.

Discretamente eu encaro Eliane. Ela faz uma careta para mim. Bota a língua para fora e revira os olhos. Ela não entendeu nada. Tenho certeza que vai continuar amamentando pelo umbigo. Talvez esteja certa. Nessa hora eu me dou conta de que também não me sinto preparada para lidar com peitos. Tiro minha filha da mochila e apoio sua cabecinha no meu ombro. Ela precisa arrotar. A coordenadora pedagógica olha para o meu bebê, olha bem para mim, e não comenta nada. Pelo menos para de falar. Vira-se para a professora e diz que vai chamar os meninos.

Eles entram aos gritos, feito um bando de camelôs, oferecendo sutiãs.
Sutiã com bojo, sutiã para tentas grandes e pequenas, sutiã para peitos caídos, sutiã miraculoso, sutiã de silicone.
A oferta é infindável.

 
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3 comentários

  1. Avatar
    Caroline Schimerski

    Indigo, ri muito com esse conto, pois fiquei imaginando as cenas “kkkk”. Ao começar a lê-lo, parecia que você e suas amigas tinham uns nove anos (porque brincavam de boneca), pois eu tenho 14 anos e me desfiz das minhas quando tinha 10 “rs”. Mas ao ler o seu desenvolvimento percebi que não, não tinham 9 anos, deveriam ter pouco mais para uma pedagoga falar sobre sutiãs e absorventes, é sei que a algum tempo atrás as meninas de minha idade ainda brincavam de boneca. Não é preconceito, nem nada do tipo haha. Foi cômico amei de mais 😀 Parabéns. C.E. João Gueno. :* :*

    1. Avatar

      Olá, galera do João Gueno. Vou responder todos os comentários logo mais. Estou na estrada, e está um pouco corrido, mas aguardem… beijo

    2. Avatar

      Eba! Que legal que vc curtiu o conto, Caroline. Fico feliz ; )

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