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6 de outubro de 2014
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Contos do corpo, 33 – os joelhos continuam

O joelho do Alexandre encostou no meu e ficou. Eu, com minha velha calça jeans de estimação e ele com a calça verde que lhe conferia um quê de guerrilheiro. Não sei se alguém na sala percebeu, mas nossos joelhos estavam grudados. Osso no osso. Padre Lúcio falava sobre o significado da quaresma. Não me pergunte como pulamos do Egito dos faraós para os quarenta dias no deserto, mas para mim fazia sentido. Eu estava tendo uma aula prática de resistência às tentações. Não que Alexandre estivesse me provocando. Suas costas estavam apoiadas no encosto do sofá, os braços cruzados, e o resto do corpo acompanhando as palavras do Padre Lúcio. Quer dizer, acho que estava. Eu não tinha coragem de virar a cabeça e olhar para a cara dele. Eu não tinha coragem de mexer um dedo sequer, com receio de quebrar a nossa ligação. Não era apenas uma questão de joelhos. Alguma coisa dentro do meu ser tinha aflorado e, pior, não parava de extravasar. Isso que vou dizer agora vai parecer um pouco brega, mas a minha alma não cabia mais no meu corpo físico. Eu latejava e sentia a fogueira dos infernos queimando dentro de mim. A junção dos nossos joelhos era a coisa mais indecente que já havia acontecido comigo. Parte de mim queria desaparecer num passe mágico. Ao mesmo tempo, não queria que aquilo acabasse mais. Por mim, Padre Lúcio podia ler a bíblia inteira. O toque do joelho do Alexandre era tão sexual que meu maior medo era engravidar ali, na frente de todo mundo, sem a menor consideração pelos métodos tradicionais de inseminação. O joelho era mais do que suficiente para mim. Embora eu tentasse não pensar além da conta, no fundo estava apavorada com as consequências daquele encontro corporal. O que ele esperava de mim? Será que ele pensava o mesmo que eu? Como ele podia não estar pensando o mesmo que eu? E por que fazer aquilo na frente do Padre Lúcio e todos nossos colegas? E do que adiantava ficar me fazendo essas perguntas se agora eu não tinha mais escapatória?

Por fora eu tentava agir normalmente. Continuava sentada, segurando uma mão na outra de modo que meus dedos formassem ganchos. Era uma maneira de me conter. Meu olhar estava atento às palavras do Padre Lúcio e minha mente fazia um esforço tremendo para, em parte, dar sentido ao que ele dizia. Todos os outros fenômenos eram imperceptíveis para as pessoas ao entorno. Em vez de ajudar, isso só piorou a situação. Comecei a me sentir uma depravada. Uma garota decente teria afastado o joelho, simples assim. Eu não. Eu deixei. Deixei e fingi que não era nada. Enquanto isso, permiti que meu corpo entrasse numa convulsão hormonal que rapidamente culminava para um desastre de proporções inimagináveis. Padre Lúcio terminou sua fala e disse que a janta estava pronta. Todos se mexeram. Levantaram-se, saíram da sala. Todos menos eu, meu joelho, o joelho dele e ele. Nós quatro ficamos, confirmando que não era delírio da minha imaginação. Era físico.  E agora?

 
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2 comentários

  1. Avatar
    tatiana ferrarini

    E agora estou louca para saber no que vai terminar esse joelho no joelho…. só posso dizer que no retiro que fiz aos 18 anos conheci o pai do meu filho e me casei. Acredita???? Mil beijocas e força na peruca. Bom inicio de semana com muitas inspirações.

    1. Avatar

      Oi, Tati! Tchan nan…. Botei lá o final da história. Se acredito que vc conheceu o pai do seu filho num retiro? CLARO que acredito, o que apenas prova como somos mais parecidas do que imaginamos.

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