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Contos do corpo, 34 – O instinto
10 de outubro de 2014
684 visualizações

Contos do corpo, 34 – O instinto

Os joelhos, coitados, não tinham culpa.

Não era uma questão de joelhos exacerbados. Joelhos que se descontrolam e levam o resto do corpo junto, feito possessão demoníaca. Se fosse isso, seria mais simples. Eu não conseguia desgrudar do sofá, não conseguia virar o pescoço e nem pedir ajuda. O meu problema era generalizado.

Minha única esperança é que Alexandre fizesse alguma coisa. Por exemplo, se levantasse e fosse embora. Daí eu poderia sofrer em paz, cair em depressão por ter sido abandonada e viver uma tragédia de verdade, com todo o fervor hormonal a que eu tinha direito. Mais do que viver o primeiro grande amor da minha vida, eu queria o melodrama. O sentimento dentro de mim era mirabolante demais para poder virar um namoro, por exemplo. Ao mesmo tempo que eu queria beijar Alexandre, queria meter um soco no meio da cara dele. As vontades me instigavam com a mesma intensidade. Tanto poderia beijá-lo primeiro e depois quebrar seus dentes com um soco, ou começar com um soco e terminar com um beijo.

Se eu fosse um tiquinho mais ousada, conseguiria agir e por um fim àquela agonia. Mas, não. Eu sentia tudinho, só não agia. Fiquei ali parada, feito uma múmia, pensando que um dia teríamos de nos mexer. Tudo que eu podia fazer era esperar. Também pensei que, melhor esperar e ficar quieta do que se arrepender depois. Eu tinha noção do perigo, pelo menos isso. Sabia que qualquer movimento da minha parte ia desembocar numa sequência de atos desastrosos. Fica quieta, não se mexe, não fala, não respira, não pensa, não faça nada. Não faça nada. Não faça nada.

Você me pergunta se considerei rezar e pedir um socorro? Nem lembrei dessa possibilidade. Mas ela veio, e foi isso que me salvou.

Veio na forma da minha amiga Thaís, com sua camiseta de Jesus me ama. Ela entrou correndo na sala, me agarrou pelo braço e me arrancou dali, feito um raio, de modo que quando dei por mim já estava em pé, sendo arrastada para fora do chalé, sem ter sequer olhado para o corpo de um solitário Alexandre no sofá.

– Vamos, corre! Vamos fazer uma fogueira na mata!

Senti o cheiro da madeira queimando. Lá longe era possível ver a rodinha de jovens com gorros, acocorados em torno da fogueira. Corri. Era noite de lua cheia. Thaís também correu. Seguimos pela trilha, avançando entre a muralha de eucaliptos.

Foi a primeira vez que tive a certeza de que, caso eu quisesse, poderia muito bem me transformar num lobo. Para mim, pelo menos, era uma possibilidade.

 
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2 comentários

  1. Avatar
    tatiana

    Ai ai ai a Thaís tirou vc de lá….Putz achei que ia rolar uma beijoca e depois um soquinho só para esquentar o clima kkkkkk. Índigo, minha linda que saudade. por aqui tudo azul e pegando fogo de tanto calor. Puxa vida, fico pensando quantas coisas tínhamos para conversar. O tempo foi pouco. Quero muito te encontrar novamente para bater papo. Como mulher gosta disso, né??? Bom, preciso voltar ao mundo e trabalhar. Beijocas e força na peruca.

    1. Avatar

      Oi, Tati. Tínhamos para conversar, temos e sempre teremos! Saudades e beijo

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