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17 de julho de 2014
780 visualizações

Contos do corpo, 4 – Fala

Demorei pra começar a falar. Sei lá, não achava necessário. Todo mundo na creche já falava pelos cotovelos e eu quieta, de boa.
Minha mãe achou que tinha alguma coisa errada comigo. Procurou um especialista. Fizeram exames. Não era nada fisiológico. O médico disse para aguardar mais três meses. Para acalmá-la, sugeriu que continuasse procurando meios de me estimular. Primeiramente, claro, conversar comigo. Mas também ler livros para mim, fazer perguntas, instigar a comunicação. Foi então que minha mãe apareceu com uma novidade. Lembro da caixa. Era do meu tamanho. Abri. Era uma boneca. Da minha altura.

– Ela fala! – disse minha mãe.

Não acreditei.
– Quer ver? – ela perguntou.

Com um movimento de cabeça, respondi que não.

– Não quer mesmo?
Não, obrigada. Não fazia questão.
– Se você quiser falar com ela é só apertar a barriga.

Minha mãe ergueu o vestido da boneca. Tinha um botão no lugar do umbigo.

– Vou te mostrar.
Saí correndo pro quintal, aos berros. Eu berrava, pelo menos.

À noite a boneca ficou parada num canto do quarto, em cima de uma cadeira, olhando pra minha cara enquanto eu tentava pegar no sono. Ela se esforçava pra ser simpática, coitada. Ficava sorrindo o tempo todo. Passei a noite em branco, com medo de que ela puxasse papo. Quando peguei no sono, vi a cara da boneca perguntando se eu gostaria de ser sua melhor amiga.
Minha mãe botava a boneca pra fazer as refeições conosco. Sentava a boneca no sofá, pra assistir televisão comigo.

– Hoje ela me contou uma história tão engraçada… – minha mãe dava indiretas.

Legal, pelo menos alguém estava se divertindo com a boneca.

– Margarida, atende o telefone pra mim? – ouvi minha mãe gritando da cozinha.
Ela chamava a boneca de Margarida.
Até meu pai começou a conversar com Margarida.
Se alguém aproximava a mão da barriga da Margarida, eu fugia.
Até o dia que eles resolveram partir pra ignorância.
Era domingo. Eu tinha acabado de acordar, ainda estava meio sonolenta. Minha mãe me pegou de surpresa e apertou a barriga da Margarida, na minha frente. Não consegui correr a tempo. Estranhamente, nada aconteceu. Margarida não disse um “A”.

– Vê se tem pilha – disse meu pai.
Tinha.
Trocaram as pilhas.
Nada.
Sacudiram Margarida.
Nada.
Deram um tapa nas costas da boneca.
Ela não deu um pio.
– Só pode estar com defeito – meu pai reclamou.

Resolveram que no dia seguinte iam trocar a boneca. Mas no dia seguinte os dois voltaram cansados do trabalho e deixaram para a terça. Na terça também não deu. Fariam isso no fim de semana, quando teriam tempo. Nesse meio tempo eu fiquei superamiga da Margarida. Quando chegou sábado, me agarrei a ela e não deixei de jeito nenhum que a tirassem de mim. Tudo isso, sem dizer uma palavra.

 
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2 comentários

  1. Avatar
    tatiana

    Ola Indigo

    Muito bom “Contos do Corpo 4”

    Os pais estimulam tanto os filhos para falarem durante a infancia e depois jogam os mesmos na frente dos computadores, celulares e televisores…ai o problema ta feito. Os pais já não querem escutar seus filhos na adolescencia e é na escola que encontram espaço para expor seus sentimentos por meio das palavras. Poderiamos conversar horas e horas somente movidas por este seu conto. Achei perfeito!!!! Certamente vou utiliza-ló na proximo encontro com os pais. beijocas

    1. Avatar

      Oi, Tati. Nem tinha pensado nesses desdobramentos. Mas agora que vc falou, faz todo o sentido! Usa, usa sim! Está aí pra isso mesmo. bjo, Í

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