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21 de julho de 2014
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Contos do corpo, 6 – “A”

Ok, eu tinha um corpo.

Legal. Era uma ferramenta. Um meio de transporte e proteção. Uma mistura de carro, casa e roupa. No começo eu era bem desapegada em relação ao corpo. Não pensava no assunto. Eu levava uma vida essencialmente sensorial, no tanque de areia, na piscina, no colo. Eu com meu pijaminha de flanela e mamadeira de Nescau. Era letárgico.

Até que um belo dia me botaram na escola. No começo não foi ruim. Só foi confuso. Não entendi por que eu tinha de ir pra escola, todos os dias. Explicarem que, indo à escola, eu ia aprender coisas importantíssimas. Não me convenceu. Nós cantávamos musiquinhas e colávamos tufos de algodão no corpo do coelho.

Certo dia a professora desenhou um negócio na lousa e pediu que ficássemos quietos. Aguardou até que tivéssemos em silêncio absoluto. Mesmo. Foi solene.

–   Essa é a letra “A”

A professora inseriu dois olhinhos dentro do triângulo de A. O risco inferior do triângulo já estava tendendo a formar um sorrisinho, e com os dois olhos o efeito foi simpático. “A” sorriu para nós.

A professora disse que “A” era nossa amiga, mas que sozinha ela não conseguia fazer nada. Ela precisava de companheiros. Acima da lousa todos os companheiros aguardavam a vez de serem chamados. Ela disse que ia nos apresentar cada um deles. Um por um. Olhei para eles.

Tinham personalidades próprias. Alguns usavam chapéu. Havia os gordos e os magros. Alguns eram obviamente femininos ou masculinos. A maioria eu conhecia de vista. Eles me pareceram bem concretos. Confesso, gostei de saber que eles também tinham corpo, som, volume e forma. A professora nos entregou pedaços de madeira com o “A” maiúsculo e minúsculo. A mesma letra quando pequena e depois de adulta. Ela queria que sentíssemos a letra, passando o dedo sobre a mesma. A letra tinha corpo áspero. Era uma lixa. Acariciei o corpinho do “a”. O exercício era apenas isso. Acariciar a letra. Gostei daquilo. E não foi um prazer sensorial passageiro. Gostei mesmo. Não quis devolver meu “A” pra caixa, ao final da atividade. A professora explicou que eu não precisava me preocupar porque a letra estaria ali no dia seguinte.

–   Sempre? – perguntei.

–   Sempre.

Ela havia comentado que nós poderíamos construir muitas coisas com aquelas letras. Muitas, muitas coisas. Sabia que ela não estava se referindo a pontes e viadutos, mas para mim a obra de que ela falava era tão concreta quanto. Eu queria levar aquelas letras comigo. No futuro eu ia usá-las pra valer. Não foi possível explicar nada disso para a professora, mas fiquei até o último segundo na sala de aula, acariciando meu “A”. Ela apagou as luzes e disse que agora eu realmente tinha de ir. A perua escolar já estava chegando.

 
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