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29 de julho de 2014
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Contos do corpo, 9 – Brinco de princesa

As férias de verão se tornaram uma sessão de tortura. Sentada na borda da piscina, com o braço engessado dentro de um saco de lixo, observava a brincadeira das outras crianças. Resolvi que esse seria um bom momento para furar as orelhas. Eu precisava de alguma coisa para melhorar minha autoestima. Brincos, pensei.

Uma bela tarde, estava no shopping com a minha mãe, quando a convenci. Ela mesmo não tinha orelhas furadas. Era alérgica a metal. Mas só porque ela era alérgica não significava que eu seria também. Ela concordou em fazermos um teste.

Não foi numa farmácia. Foi num quiosque, no meio do corredor do shopping. Um moço apontou um revólver para a minha orelha e deu um tiro. Por um segundo achei que tivesse morrido. A dor era de quem leva um tiro de verdade. Naquela época era assim que se fazia. Usavam revólveres de pressão. Era o início dos anos mil novecentos e oitenta, e o revolvinho era considerado normal. Revolvinho, no diminutivo. Quase carinhoso.

–              Agora a outra – disse o moço.

Tinha a outra.

Só suportei porque era também uma época em que as meninas usavam três, quatro brincos por orelha. Era punk. Aguentei o segundo tiro e saí andando, fingindo que estava tudo bem. Minhas orelhas pulsavam. A orientação era para não mexer, não encostar o dedo durante as primeiras vinte e quatro horas. Sentia as orelhas queimando e me concentrava no meu braço engessado, que coçava loucamente. Minha vontade era de abrir um zíper nas costas e sair do meu corpo. Mas eu aguentaria. Em breve estaria usando brincos de pingente, feito uma princesa. Seria uma nova eu. As orelhas ardiam, eu pensava no meu futuro.

Na manhã seguinte, o lóbulo da minha orelha era uma jabuticaba. Fomos correndo ao pronto-socorro. A enfermeira olhou, balançou a cabeça e disse:

–              Vai doer.

Extraíram os brinquinhos. Esse é o termo. Extração. Minha orelha era um naco de carne com uma pepita dentro. Levei bronca da enfermeira.

–              Mais um pouco e você podia perder a orelha.

No fim, conseguiram deixar alguma coisa dos lóbulos. O suficiente para regenerar com ajuda de muita pomada e curativos. Veio o veredicto.

–              Você nunca vai poder usar brincos.

Meses depois, tentei de novo. E de novo. Foram cinco tentativas. Todas as vezes fui parar no pronto-socorro, passei pela dor e acreditei que, dessa vez, ia dar certo. Dos nove aos dezenove eu persegui o sonho de usar brincos de princesa e me tornar mais feminina. Mesmo perdendo pedaços da orelha a cada vez. Ela sempre crescia de volta. O que aprendi com tudo isso? Que embora eu não fosse uma princesa, pelo menos era resistente, como uma lagartixa.

 

 
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